S. Gonçalo de Lagos

No dia 27 de Outubro de 1997, dia do padroeiro de Torres Vedras, os torrienses puderam admirar o altar de São Gonçalo de Lagos, na Igreja da Graça, finalmente restaurado. Com a boa vontade dos padres naturais deste concelho, foi possível dignificar novamente o altar daquele que é, até hoje, o único beato da Ordem Agostiniana originário da Península Ibérica. Isto, depois de, durante vários anos, o altar ter passado por inúmeras vicissitudes, que o destruíram parcialmente, a ponto de ter sido necessário remover as suas famosas relíquias para um local mais seguro, privando a população de manter convenientemente viva a tradicional veneração ao seu “Santo” da casa.

(Fotografia de Dias dos Reis)

A propósito das comemorações do dia do padroeiro e do restauro do seu altar, transcrevemos o texto do documento de trasladação das relíquias de S. Gonçalo de Lagos[1], da arca ossuária ainda existente na capela-mor da Igreja da Graça, para a nova urna, colocada no altar do padroeiro, ocorrida a 15 de Novembro de 1784:

Traslado do original Instrum[en]to / de nova solene colocação das Re/líquias do Beato Gonçalo de Lagos / que aqui trasladei por ordem do / Senado da Câm[ar]a entregando / o próprio ao Reverendo Prior / do Convento da Graça como tudo ao / diante se vê.

Saibam quantos este público Instrumento de nova solene colocação das relíquias do Beato Gonçalo de Lagos, extraídas do lugar em que existiam na Capela-mor desta Igreja de Nossa Senhora da Graça, da vila de Torres Vedras, na parede lateral da parte da epístola, para o seu próprio altar e capela, que é a última que se acha na mesma Igreja da parte do evangelho, tudo no dia quinze de Novembro de mil e setecentos oitenta e quatro, sendo presidente na Igreja de Deus o Santíssimo em Cristo Padre Pio Sexto, no décimo ano do seu pontificado e no oitavo do reinado dos fidelíssimos reis de Portugal a Senhora Dona Maria primeira e o Senhor Dom Pedro Terceiro, a cujos piíssimos e devotos influxos de sua régia e exemplar piedade se faz esta nova e solene colocação, anuindo nela o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Fernando primeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa, sendo cometida e executada pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo de Gôa Primaz do Oriente Dom Frei Francisco da Assunção Brito, estando presente o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Cardeal Patriarca pela pessoa de seu delegado, o muito Reverendo Doutor João Crisóstomo Vieira de Horta, Vigário da Vara e Juiz dos Resíduos deste Arciprestado, pela carta da delegação que achei no acto deste, de que dou minha fé datada em onze de Novembro de mil e setecentos e oitenta quatro, estando também presentes o Doutor José da Cunha Fialho, Juiz de Fora da dita vila e Presidente da Câmara da mesma, e os Vereadores Estevão Zagalo de Andrade Leite, o Doutor Joaquim José de Almeida e Carvalho, José César Palhano e Vasconcelos e o Procurador do Concelho Manuel Inácio de Sequeira Cardoso e o Alferes da Bandeira Luis da Vaza, estando também presente o Reverendo Padre Frei José de Jesus Maria, Prior actual deste Convento de Nossa Senhora da Graça, e mais religiosos do mesmo, aos quais todos foi dito pelo Excelentíssimo senhor arcebispo que na sobredita Igreja se achavam as Relíquias do Beato Gonçalo de Lagos, Padroeiro da mesma vila e Prior que fora no dito convento, depositadas em um antigo cofre fechado, que estava na capela-mor da mesma Igreja, da parte da epístola, recolhido decentemente em um sagrado lugar, com sua grade de ferro dourada e suas cortinas, constando que deste cofre houveram três chaves, as quais antigamente se entregaram uma aos Emerentíssimos e Reverendíssimos Ordinários do Patriarcado de Lisboa, outra à Câmara desta vila, outra aos Reverendos Priores do mesmo Convento, e como por ordem de Suas Magestades se haviam as ditas relíquias trasladar para outro cofre e lugar, se deviam apresentar estas chaves para proceder-se a uma solene abertura, que ele, Excelentíssimo e Reverendíssimo e seus assistentes, haviam celebrar assim na presença do sobredito delegado como do corpo da Câmara desta vila e da do dito Reverendo Prior e mais religiosos do mesmo Convento; o que sendo ouvido por todos os sobreditos que presentes estavam, que asseveraram terem-se desencaminhado as duas chaves respectivas, a do Emerentíssimo e Reverendíssimo Senhor Ordinário e a [da] Câmara desta vila, logo se procedeu, na presença dos mesmos e de mim, o Padre Manuel Cardoso Monteiro, presbítero do hábito de São Pedro, Notário apostólico de Sua Santidade e aprovado neste Patriarcado, à abertura do antigo cofre, arrombando-se o mesmo e celebradas todas as cerimónias sagradas pelo dito Excelentíssimo e Reverendíssimo arcebispo e seus assistentes e mais corpo do clero regular e secular, se trasladaram pelos mesmos solenes reverentes, e religiosamente, as ditas relíquias do Beato Gonçalo de Lagos, que no antigo cofre se acharam depositadas, para outro novo cofre de figura quadrado longo, todo de brocado de ouro por fora com assento azul ferrite, forrado por dentro relhama de prata com galões de ouro fino, metido em uma urna de madeira com a parte superior de figura piramidal toda prateada no assento e dourada na talha, tendo a dita urna uma só chave e o sobredito cofre tem por fora uma fechadura dourada com três chaves com as quais, na presença dos sobreditos, se afixou solenemente pelo dito Excelentíssimo e Reverendíssimo arcebispo e seus assistentes o dito cofre, entregando-se as mesmas três chaves, a primeira ao Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa na mão e poder de seu delegado o Reverendo Doutor João Crisóstomo Vieira da Horta, Vigário da Vara e Juíz dos Resíduos deste arciprestado, e a segunda ao corpo da Câmara desta vila, na mão e poder de seu Presidente o Doutor Juíz de Fora José da Cunha Fialho, e a terceira aos religiosos do dito Convento, na mão e poder do seu Reverendo Prior, o Padre Frei José de Jesus Maria, que solene e reverentemente as aceitaram, tomando delas real e efectiva entrega, depois do que celebradas as mais cerimónias da Igreja, se colocou o novo cofre em uma própria e privativa capela destinada para o culto do mesmo Beato Gonçalo de Lagos, que na dita Igreja fica sendo o último da parte do evangelho, e eu, o Padre Manuel Cardoso Monteiro, natural do lugar do Maxial, termo desta vila, Notário apostólico por Sua Santidade, aprovado neste Patriarcado, que este Instrumento mandei fazer e assino de meu sinal público e raso de que uso, com as testemunhas abaixo assinadas, que dou fé serem nos próprios cujo Instrumento vai escrito e assinado em três meias folhas de papel, e eu o Padre Manuel Cardoso Monteiro, que este sobre escrevi e assinei no dia mês e ano supra, o Padre Manuel Cardoso Monteiro = I.ta é lugar do selo = O Prior Vigário da Vara, delegado de sua Eminência João Crisóstomo Vieira de Horta, o Juíz de Fora e Presidente da Câmara José da Cunha Fialho, o Vereador Estevão Zagalo de Andrade Gouveia Leite, o Vereador José César de Faro e Vasconcelos, o Vereador Joaquim José de Almeida e Carvalho, o Procurador do Concelho Manuel Inácio de Sequeira Cardoso, como Escrivão da Câmara Miguel Germano Bento da Rosa, o Alferes da Bandeira Luis da Vaza César de Faro, como Prior do Convento Frei José de Jesus Maria, como testemunha o Prior Bento José Vicente Mateus Durão, como testemunha o Beneficiado Alberto Figueira da Horta, como testemunha o Provincial Absoluto Frei Tomás da Silveira Vigário Provincial Prior da Graça, como testemunha o Pregador Geral Frei José Brochado, primeiro definidor, como testemunha Francisco Mendo Trigoso Pereira Homem de Magalhães //João Anastácio Ferreira Raposo ___ // ___ // ___

E não se continha mais em o dito Instrumento de colocação feito em veneração do Beato Gonçalo de Lagos, li o Instrumento fielmente, aqui copiei por ordem do Senado da Câmara, do próprio, que tornei a entregar a quem mo apresentou, de que como recebeu aqui comigo assinou nesta vila de Torres Vedras aos oito de Janeiro de mil e setecentos e oitenta e cinco anos, Miguel Germano Barreto de Pina o escrevi e assinei.

Miguel Germano Barreto de Pina

[1] Para facilitar a leitura, foi feita a actualização ortográfica do texto e acrescentada alguma pontuação.

© Isabel de Luna / 1997.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «S. Gonçalo de Lagos». Jornal Badaladas, 2123. Torres Vedras: Fábrica da Igreja Paroquial de S. Pedro e S. Tiago, 24.10.1997, p. 3.

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