Monte do Calvário

(Fotografias de Dias dos Reis)

No centro do vale de Matacães – zona de férteis terrenos agrícolas, que sobressai no conjunto do território do concelho, pelo seu valor paisagístico e histórico-cultural -, num monte sobranceiro ao rio Sizandro, ergue-se a Ermida do Senhor do Calvário.

O monte do Calvário deve a sua beleza natural, não apenas às excelências paisagísticas da sua área de implantação, mas também às suas próprias características naturais. Todo o monte está coberto por uma frondosa mata, constituída, em grande parte, por uma flora autóctone de carrascos, zambujeiros e pinheiros mediterrânicos, mas também por outras espécies, como ciprestes e eucaliptos. Não é totalmente despropositado considerar que, pelas suas características naturais, pudesse ter sido utilizado como santuário rupestre, em tempos pré-romanos e/ou romanos, como parece atestar a existência de um trono escavado na rocha e de um canal para escoamento de líquidos (que poderá ter servido como libatório, para a realização de cultos pagãos), em frente à capela.

Num outro nicho escavado na rocha, terá aparecido, segundo a tradição, a imagem do Senhor do Calvário, o que teria levado à edificação da ermida. No entanto, segundo os anotadores da obra de Manuel Agostinho Madeira Torres[1], muito antes do século XVIII, a capela teve a invocação de Santo António, pelo que a sua origem deverá ser mais remota. A ermida era filial da igreja matriz de S. Miguel, tendo-lhe sido concedida licença para celebrar missa, em 1632. Mas era propriedade da família Trigoso, da Quinta Nova, que se uniu por matrimónio à família Falcão, da Quinta do Juncal. A esta última, que é, actualmente, cabeça dos bens das duas famílias, está agora adstrita a capela. O Papa Pio VI, a pedido de D. Francisco Mendo Trigoso – Inquisidor da Corte e Bispo de Viseu – concedeu, a quem visitasse a ermida, diversas graças e indulgências.

Devido às características do terreno, a capela-mor da ermida está voltada a poente e uma das fachadas está construída sobre a rocha, aproveitando a forma e resistência do penhasco. Em frente da capela encontra-se uma representação do calvário, com três crucifixos de pedra cravados na rocha que, durante os festejos, são cobertos de flores.

No altar-mor, o trabalho de mármores embutidos – datado de 1712 – apresenta a figuração de um grande sol radioso. Quando a imagem de Cristo Crucificado é colocada no altar, o sol transforma-se no seu resplendor, numa integração perfeita entre o desenho e a imagem tridimensional. Também a mesa do altar é de embutidos de mármores florentinos, com a representação, em jeito de brasão, das cinco chagas de Cristo. Nas paredes colaterais ao altar-mor existem duas lápides de mármore epigrafadas, do século XVIII. Na sacristia, mandada construir em 1771, por D. Francisco Trigoso, destaca-se um lavabo embutido na parede, em que a torneira sai de uma cruz de Cristo esculpida em mármore rosado e uma cómoda com tampo de mármore. A exemplo dos seus antecessores, aquele eclesiástico mandou fazer diversas benfeitorias na capela, entre as quais a colocação de painéis de azulejos figurativos: na capela, representando cenas da paixão de Cristo, encimadas por 14 cartelas com as estações da via-sacra; na sacristia, representando cenas da vida de Santo António.

A devoção para com o Senhor Jesus do Calvário conservou-se na Casa do Juncal, que sempre ali mandou fazer duas festividades anuais: no dia 3 de Maio, dia da Invenção da Santa Cruz, e no dia da Exaltação da mesma, a 14 de Setembro, para além da missa que ali mandavam celebrar todas as sextas-feiras da Quaresma. Também os habitantes da região consagram uma grande devoção à imagem do Senhor do Calvário. No século passado, ali concorriam continuamente muitas pessoas, rendendo graças pelos benefícios recebidos. E, por devoção muito antiga, no Domingo de Ramos, os habitantes da freguesia costumavam levar a imagem em procissão de penitência para a igreja paroquial de Nossa Senhora da Oliveira, onde havia pregação; um domingo depois da Páscoa, faziam-lhe uma festa solene, em acção de graças; e, no dia 3 de Maio, a imagem voltava a recolher à ermida, em romaria.

Actualmente, continua a celebrar-se a procissão do Senhor do Calvário, no Domingo de Ramos. Primeiro, é feita a bênção dos ramos, na Capela do Sagrado Coração de Jesus, na Quinta do Juncal. Depois, a imagem é trazida em procissão, da ermida para a igreja paroquial, onde se celebra a missa da Paixão. A imagem só regressa à ermida no dia 3 de Maio, festa do Senhor do Calvário (antiga festa da Vera Cruz). Esta festa, que continua a ser mandada fazer a expensas da Casa do Juncal, é constituída por missa concelebrada e pregação, na igreja paroquial, seguindo depois a imagem, em procissão, para a ermida, onde muitas pessoas vão pagar promessas. Na celebração e procissão participa uma banda filarmónica, que no final da festa toca ainda alguns temas defronte da fachada principal da Quinta do Juncal, para a família proprietária.

As características naturais do monte do Senhor do Calvário, a belíssima paisagem que dele se desfruta, o valor patrimonial da pequena ermida que o encima e a atracção que este lugar de culto exerce sobre as populações da região, fazem deste local um dos mais interessantes sítios naturais do concelho e um importante local de peregrinação popular, cujas tradições têm vindo a ser retomadas, desde há alguns anos, pelo dinamismo do pároco local.


[1] Descripção histórica e económica da villa e termo de Torres Vedras.

© Isabel de Luna / 2004.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «Monte do Calvário, em Matacães: santuário atracção das gentes da região», jornal Estafeta, Torres Vedras: Torres Fénix, 31.03.2004, p. 3.

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