Castro do Zambujal

Durante o V milénio a.C. ocorrem na Estremadura, tal como em toda a Península Ibérica, profundas transformações sócio-económicas que, progressivamente, conduzirão as comunidades de caçadores-recolectores para uma economia de produção. Não obstante a importância dos impulsos externos, este processo teve por base a interacção de vários factores, aos quais não foram alheias, também, significativas alterações do meio ambiente e dos ecossistemas.

As bases de subsistência das comunidades humanas alargam-se, com a introdução da criação de gado e da agricultura, a que correspondem importantes inovações tecnológicas: o fabrico de recipientes de cerâmica e de instrumentos relacionados com a actividade agrícola, nomeadamente os de pedra polida. Paralelamente, a sedentarização e, consequentemente, o aumento demográfico e a possibilidade de acumulação de excedentes, dariam origem às primeiras formas de diferenciação social.

Esta nova organização social implicou alterações relevantes, ao nível das práticas funerárias. Os mortos são enterrados em sepulturas individuais, levando consigo, tanto instrumentos ligados à caça e à agricultura, como recipientes de cerâmica. Mas, para além da inumação de cadáveres em grutas, construíram-se, também, espaços sepulcrais, propositadamente para este efeito: grutas artificiais, escavadas nos macios calcários estremenhos, e monumentos megalíticos, constituídos por uma câmara funerária, delimitada por grandes esteios e coberta por um tumulus de terra. A monumentalidade destas construções evidencia a existência de relações de entreajuda, em prol de objectivos comunitários, características de uma sociedade tribal.

É neste cenário que a península de Lisboa assiste, nos alvores do III milénio a.C., à emergência das primeiras sociedades agro-metalúrgicas. A uma economia baseada na agricultura, junta-se, agora, uma revolucionária inovação tecnológica: a metalurgia, designadamente do cobre e do ouro.

Este desenvolvimento das comunidades pré-históricas peninsulares foi, indiscutivelmente, propiciado pelo estabelecimento de contactos comerciais com navegadores do Mediterrâneo oriental, que, desde os finais do IV milénio a.C., vinham alcançando as costas da Península Ibérica. A maior expressão atingida por este intercâmbio marítimo ocorreu na Estremadura, onde os estuários do Tejo e do Sado constituíam, não só grandes entrepostos comerciais, como importantes vias de acesso fluvial para o interior do território, onde se encontravam os recursos minerais. Destaca-se, particularmente, a península de Lisboa, pela facilidade do acesso marítimo, pela foz de grandes rios – o Tejo e o Sizandro –, pela fertilidade dos seus terrenos e pela existência de apreciáveis recursos de matérias-primas.

As populações passam a instalar-se em extensos povoados de altura, com boas condições naturais de defesa, onde constroem complexos sistemas defensivos. São verdadeiras fortalezas, formadas por muralhas de pedra (material, até então, apenas presente nas construções funerárias), guarnecidas de torres e bastiões circulares, de uma grandiosidade sem precedentes. Em torno de alguns povoados maiores, criam-se verdadeiras redes hierarquizadas de povoados de menores dimensões, com uma interdependência económica – comprovada pelos achados arqueológicos –, demonstrativa do reforço do papel do comércio inter-regional, na economia. São notáveis, nesta região, os povoados de Leceia e de Vila Nova de S. Pedro, mas nenhum deles suplanta, em área e monumentalidade, o do Zambujal, em Torres Vedras.

Castro do Zambujal, 2007 (Wikimedia Commons)

Situado num planalto, em cujo sopé corria uma importante via fluvial, o Zambujal dispunha de uma localização estratégica, junto do estuário do Sizandro – um perfeito porto natural –, dominando uma vasta área e controlando uma das principais vias de penetração no território da região. No centro do povoado, erguia-se a fortificação, constituída por uma cidadela circular, com cerca de 40 m de diâmetro interior, da qual sobressaíam bastiões semicirculares, e para onde se entrava por um estreito corredor. Reforçavam esta cidadela duas barbacãs, de onde se abriam várias seteiras, orientadas para cobrirem as entradas da primeira de uma série de linhas de muralhas, que corriam para oriente, onde as defesas naturais eram inexistentes. Estas muralhas, com cerca de 4 m de altura, eram, também, providas de torres e bastiões.

Ao longo dos seus oito séculos de ocupação (cerca de 2500 a 1700 a.C.), este povoado fortificado sofreu uma longa série de alterações, acrescentos e restauros, a que corresponderam, genericamente, quatro diferentes conceitos de estratégia militar. Isto significa que a sua construção, bem como as posteriores alterações, tiveram de ser elaboradas por verdadeiros arquitectos e estrategos militares, de acordo com planos de construção previamente definidos.

Uma tão grande e sofisticada fortificação requeria, também, uma significativa quantidade de pessoas para a construir, defender e manter. A população anónima habitava numa extensa área em redor da fortificação, sendo quase certo que, nesta última, residiriam apenas os líderes políticos, militares e religiosos, bem como uma nova classe de artífices, os metalurgistas, responsáveis pela maior fonte de riqueza do povoado. A metalurgia do cobre era praticada no interior da fortificação, sendo a maior parte do metal, muito provavelmente, fundido em barras, para posterior comercialização. No Zambujal foi também encontrada uma conta de colar, de ouro, que parece ser o mais antigo vestígio da metalurgia do precioso metal, em toda a Península Ibérica.

Castro do Zambujal, 2010 (Manuel F. V. G. Mourão)

Não teria sido possível, a um povoado com esta componente militar, manter-se e desenvolver-se, durante tantos séculos, sem uma eficaz e rígida organização, que passava por formas elementares de divisão do trabalho e de dominação social. Uma parte importante da população trabalhava, assim, para sustentar as chefias político-militares, os líderes religiosos e os metalurgistas. Dedicava-se a uma agricultura intensiva e à criação de gado, continuando a caça, a pesca e a recolecção, a ter o seu papel na subsistência desta comunidade. Mas surgem já as primeiras actividades transformadoras, como a moagem, a fiação e a tecelagem.

Não se conhecem, ainda, os locais de enterramento dos habitantes deste povoado, ou seja, locais que lhe sejam tão próximos, que seja inegável o seu relacionamento directo, apesar de se encontrarem, na região de Torres Vedras, diversas necrópoles suas contemporâneas. Se muitos dos rituais funerários apresentam uma continuidade em relação ao período anterior, ou seja, ao Neolítico Final, dificultando a divisão cronológica entre as duas épocas, outros constituem verdadeiras inovações. Os enterramentos continuam a fazer-se em grutas naturais (de que a Cova da Moura é um exemplo notável) e artificiais (Ermegeira, Lapas e Cabeço da Arruda, entre outras), mas surgem também os tholoi, grandes monumentos com falsa cúpula, cuja arquitectura copia modelos claramente mediterrânicos, e que têm no Barro e em Pai Mogo, dois dos seus maiores expoentes. Ao nível dos rituais, as maiores novidades são a prática da inumação colectiva e o aparecimento de uma nova divindade, a “Deusa dos Olhos de Sol”[1] (cuja simbologia ocular está presente em diversos artefactos rituais), que se impõe a antigos cultos, ligados, sobretudo, à fertilidade (representados, por exemplo, nas pequenas esculturas de coelhos, de osso). Associado ao novo culto, está o aumento e diversificação do espólio funerário, nomeadamente o aparecimento de artefactos votivos de calcário, também de inspiração mediterrânica. Os recipientes de cerâmica, tal como nos povoados, possuem novas formas e decorações mais elaboradas, de que são exemplo os copos com decoração canelada, os recipientes com decoração foliácea e, posteriormente, as cerâmicas campaniformes.

As características mediterrânicas das estruturas funerárias, dos artefactos votivos e dos povoados calcolíticos – nomeadamente o facto de, logo nas suas fases iniciais, surgirem com uma dimensão, complexidade e tecnologia construtiva, sem precedentes –, ligadas ao pleno domínio da tecnologia metalúrgica, levam-nos a concluir que à península de Lisboa terão chegado, durante a primeira metade do IIIº milénio a.C., navegadores provenientes do Mediterrâneo oriental, que se terão estabelecido nesta região, na busca de minérios, designadamente do ouro, do cobre e do estanho (os dois últimos, necessários à obtenção do bronze, cuja metalurgia dominavam perfeitamente). As complexas fortificações militares, claramente demonstrativas de uma sociedade em guerra, poderão assim justificar-se, pelos conflitos que a chegada de populações exógenas terá gerado com as populações locais. As influências desta colonização parecem ter partido, posteriormente, daqui, para o restante território português, onde se integraram, de forma mais pacífica e natural, nos processos evolutivos das diferentes populações.

Da mesma forma como, na Estremadura, surgiu quase sem precedentes, a civilizaçãocalcolítica acabou também por se extinguir, sem continuidade, no início do IIº milénio a.C. O colapso deste modelo sócio-económico, por razões ainda desconhecidas – mas cuja explicação poderá estar, em parte, no rumo tomado pelas sociedades mediterrânicas –, ditou um profundo corte sócio-cultural, que se reflectiu, entre outras manifestações, no total abandono destes povoados e no retorno à inumação individual (com tudo o que isso representa, em termos de crença religiosa).

Abandonado por volta de 1700 a.C., o Castro do Zambujal só viria a ser redescoberto 3600 anos mais tarde. Aquele que chegou a ser um dos maiores povoados da Península Ibérica aguarda, agora, que o IIº milénio d.C. lhe reserve um novo e digno papel.


[1] Cf. GONÇALVES, Victor S. – «As sociedades camponesas na Península de Lisboa: do 6.º ao 3.º milénio», in Lisboa Subterrânea. Milão/Lisboa: Electa/Sociedade Lisboa 94 – Museu Nacional de Arqueologia, 1994, p. 39-44 [44].

© Isabel de Luna / 1999.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «A pré-história na região do Oeste», in Os fundamentos da amizade: cinco séculos de relações culturais e artísticas luso-chinesas. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 1999, pp. 222-223.

Republicado em 2000 como:

LUNA, Isabel de – «Castro do Zambujal», in Badaladas, 2339, suplemento Freguesias, 19. Torres Vedras: Fábrica da Igreja Paroquial de S. Pedro e S. Tiago, 03.11.2000, pp. 2-3.

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3 respostas a Castro do Zambujal

  1. Valiosa e oportuna divulgação de um texto de referência sobre o Castro do Zambujal. Tanto mais quanto o Instituto Arqueológico Alemão continua a efectuar trabalhos de prospecção na área do Castro, tentando encontrar elementos que indiciem as suas reais dimensões. Isso mesmo o comprovámos, há duas semanas, quando lá estivemos com Michel Kunst.
    Isabel Luna: obrigado por mais este contributo!

  2. filipa diz:

    eu adoro mesmo o CASTRO DO ZAMBUJAL.

  3. Amilcar Rodrigues diz:

    Em 1966, estando ao serviço da Câmara Municipal de Torres Vedras, secção de obras, o Engenheiro Pinção, Chefe dos Serviços, mandou-me fazer o levantamento do referido Castro
    que constou de uma planta topográfica, fundamentos, alçados e cortes. Deixo aqui este registo
    como lembrança da minha passagem pela Secção Técnica da Câmara,como desenhador even-
    tual, tinha eu 19 anos.

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