S. Tiago, Torres Vedras

Mealha de D. Sancho I
(Fotografia de Guilherme Cardoso)

Divulga-se, aqui, o resultado da intervenção arqueológica realizada em 2001 no quarteirão a norte da igreja de S. Tiago, na cidade de Torres Vedras.

A igreja de S. Tiago era uma das quatro matrizes da antiga vila de Torres Vedras. Datada do início da nacionalidade, são-lhe conhecidos fregueses desde 1225. A igreja, localizada no sopé do morro do castelo, tinha na sua envolvente o antigo Convento de Santo Agostinho, a Casa das Fangas (que D. Dinis transformou na sua adega do relego), a Rua da Judiaria e a Rua da Olaria, fazendo frente para a Rua dos Mercadores. No largo de S. Tiago tinham as suas tendas comerciantes e artesãos. Em 1734 ainda existia, junto à igreja, a Adega do Relego, que se dizia, por tradição, ter sido uma mesquita durante a ocupação árabe. Numa planta militar da vila, de meados do século XIX, o interior do quarteirão que confronta com a igreja, pelo norte, parece corresponder a uma ampla zona ajardinada, eventualmente pertencente a uma casa nobre, com frentes para as actuais ruas do Terreirinho e Dr. Aleixo Ferreira. No início do século XX, António Hipólito estabeleceu aí a sua primeira oficina metalúrgica, ao lado da qual viria a construir, no início da década de vinte, a sua própria casa de habitação, interessante exemplar arquitectónico da Arte Nova. A primitiva oficina viria a dar lugar, já no segundo quartel do século XX, à grande fábrica metalúrgica, que se adossou à igreja de S. Tiago, desfigurando grandemente aquela zona do centro histórico.

Em 1997, as instalações da fábrica Hipólito e a antiga casa de habitação do comendador foram demolidas, com vista à construção de um grande empreendimento imobiliário no local. Quatro anos depois, por intervenção da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, a Câmara Municipal levou a efeito sondagens arqueológicas prévias no local, tendo em vista a minimização dos impactos da construção.

Sob a direcção de Guilherme Cardoso e de Isabel Luna, procedeu-se à abertura mecânica de uma vala de sondagem transversal ao terreno, para verificar a eventual existência de vestígios arqueológicos ou de níveis de ocupação. A escavação permitiu detectar um primeiro nível estratigráfico com fragmentos cerâmicos da Idade do Ferro e do período romano, sobre o qual assentava uma camada datada da alta Idade Média, com inúmeros materiais islâmicos. Seguia-se-lhe uma camada com abundantes fragmentos de cerâmica doméstica, restos alimentares e vestígios de actividade artesanal ligada ao ferro, com materiais dos séculos XII a XIV. A camada superior, sob o pavimento da fábrica Hipólito, integrava materiais da Idade Moderna, misturados com materiais mais recentes, associados ao funcionamento da primitiva oficina Hipólito.

A cerca de 1,65m de profundidade foi posta a descoberto uma estrutura circular de barro, com cerca de 1m de diâmetro, que formava a câmara de combustão de um pequeno forno cerâmico islâmico, destinado ao fabrico de peças foscas ou de materiais de construção. A cúpula da estrutura tinha abatido e a grelha encontrava-se completamente fragmentada. O achado desta estrutura imóvel permitiu comprovar, pela primeira vez, a ocupação medieval islâmica deste quarteirão urbano.

LUNA, Isabel e CARDOSO, Guilherme – S. Tiago, Torres Vedras: resultados dos trabalhos arqueológicos. Torres Vedras: [policopiado], 2009.

S. Tiago, Torres Vedras (10,90 MB)

© Isabel de Luna e Guilherme Cardoso / 2009
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