Tesouro do Outeiro da Cabeça

Tudo indica que terá sido no ano de 1929 que, ao ser lavrado um terreno, junto ao Casal das Passadeiras, na freguesia do Outeiro da Cabeça, foi descoberto um importante conjunto de jóias áureas, frequentemente designado por Tesouro do Outeiro da Cabeça. Os dados sobre a sua descoberta são escassos e, com base na bibliografia conhecida, parece poder concluir-se que, só passados alguns anos, esta descoberta terá chegado ao conhecimento do arqueólogo Leonel Trindade, na altura, vice-director do Museu Municipal de Torres Vedras.

Outeiro 2Desconhece-se o contexto deste achado: se se trataria de uma sepultura, ou de um simples tesouro, isto é, um conjunto de valores entesourados, propositadamente enterrado pelo seu proprietário, num esconderijo, numa época marcada por maior insegurança, ou mesmo pela guerra. O Dr. Manuel Heleno, director do, então denominado, Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos (actual Museu Nacional de Arqueologia), coloca ainda a possibilidade de poder ter existido, no local, uma oficina de metalurgia do ouro. Esta hipótese baseava-se no facto de terem sido encontrados, naquele conjunto, dois pequenos fragmentos de barra de ouro, inclassificáveis (mas com vestígios de terem sido partidos), que poderiam ser restos da matéria-prima utilizada na fundição, bem como pela quantidade de carvões que se observavam no local. No entanto, em 1935, o Dr. Manuel Heleno refere também que “os carvões que ali se observavam podem, contudo, dever-se a uma queimada que ali se fez”.

O conjunto era formado pelas seguintes peças:

OC 1715–          Cerca de 30 discos (um deles apenas uma metade), designados por botões, com 16 mm a 17 mm de diâmetro e um peso que varia entre 0,7 g e 1,1 g. A ornamentação é feita por circunferências concêntricas, em relevo, entre as quais correm uma ou duas cercaduras granuladas, impressas a punção, da face inferior para a superior. No verso, o pé, ou elemento de fixação, apresenta-se, ora simples, ora duplo.

OC 1724 e OC 1725–          Quatro pequenos brincos arcaicos, lisos, de fio de ouro, que adelgaça para as extremidades, cuja forma é vulgarmente denominada de “sanguessuga”. O diâmetro dos aros tem entre 1,5 cm e 2 cm e o seu peso ronda os 5 g (entre 4,75 g e 4,9 g)

OC 1720–          Numerosas dezenas de argolinhas simples. Quatro delas eram duplas, de fio enrolado, terminando em duas espirais, formando pingentes que, pela sua forma, receberam de Leonel Trindade a designação de colchetes. Formariam, enfiadas, parte dum colar, devendo o peso total das pequenas argolas ser de cerca de 6 g, enquanto que cada um dos colchetes pesará cerca de 0,45 g.

–          Uma conta de colar bicónica, que constituiria, talvez, o elemento central do mesmo colar.

OC 1726–          Dois fragmentos de barra de ouro, com 1,6 g e 8,8 g.

Estes objectos foram adquiridos, em 1935, pelo Museu Municipal de Torres Vedras (12 botões e meio, 84 pequenas argolas, 2 colchetes, 2 brincos, 1 conta bicónica e 1 fragmento de barra) e pelo Museu Etnológico (9 botões comprados e 1 oferecido por Leonel Trindade, 2 brincos, 2 colchetes, 1 fragmento de barra e algumas dezenas de argolinhas). Vários botões acabaram, ainda, por ficar na posse de particulares. Esta divisão fez com que fossem montados, com as pequenas argolas e a conta bicónica, dois colares compósitos, em exposição naqueles dois museus, mas de tal modo pequenos, que parecem ser peças de um mesmo colar.

Outeiro 1Os elementos de fixação dos discos de ouro, idênticos aos dos botões, demonstram que eles seriam fixados sobre peças de vestuário (possivelmente de couro), quer como simples elementos de adorno, quer para servirem para abotoar o vestuário. Em Portugal, são conhecidos botões de ouro desde a Idade do Bronze (Bronze Médio), possuindo, tal como os modernos botões, dois furos, quatro furos, ou uma argola de fixação. São exemplos de peças dessa época, os achados de Cabeceiras de Basto (Braga) e Sobreiral (Castelo Branco). No entanto, não se excluiu, ainda, a possibilidade de estas peças serem elementos de formação de colares.

Segundo o Dr. Farinha dos Santos, os brincos do Outeiro da Cabeça teriam as pontas afiadas,  para se poderem fixar no lóbulo da orelha do utilizador. A sua forma aguçada e o facto de os aros estarem praticamente fechados, com as duas pontas quase coladas, fazem crer que estes brincos seriam, provavelmente – e tal como na actualidade -, colocados em perfurações feitas no lóbulo da orelha, sendo os aros, posteriormente, mais bem fechados. Também não se pode excluir que estas sanguessugas constituíssem elementos de um colar. É conhecido, entre outros, um colar (ou xorca) de bronze, proveniente de Alenquer, da mesma época, formado por inúmeras sanguessugas idênticas a estas, que pendem de um aro, também de bronze.

Para os dois fragmentos de barra encontrados, o Dr. Farinha dos Santos apresenta ainda a hipótese de terem servido de moeda.

tesouroEste conjunto de peças está datado da Primeira Idade do Ferro, ou seja, genericamente, de entre os séculos VIII e VI a. C., sendo similar aos tesouros encontrados em São Martinho (Alcácer do Sal), Baião (Porto), Cabeceiras de Basto, Bensafrim e Condeixa-a-Velha.

A Península Ibérica era uma das mais ricas regiões auríferas de todo o Mundo Antigo. As suas jazidas foram exploradas desde a Idade do Cobre, cerca dos finais do IIIº milénio a. C., situação comprovada pela descoberta de uma conta de ouro no Castro do Zambujal, que constitui um dos mais antigos vestígios da metalurgia do ouro na Península Ibérica. Esta importância manteve-se até ao momento em que as jazidas de ouro da África Ocidental e Meridional, bem como, ainda que mais tarde, as das Américas, começaram a ser exploradas de um modo intensivo. Actualmente, e apesar de ser conhecida a existência de ouro na Península, nomeadamente em Portugal, a sua exploração não tem sido considerada rentável. O ouro era explorado nos leitos dos cursos de água, no seu estado natural, por lavagem das areias auríferas. Só mais tarde, com a romanização, foi feita a sua exploração em minas subterrâneas.

Por causa da sua riqueza mineira, não só em ouro, mas também em prata, estanho e cobre, povos de todo o Mundo Antigo mantiveram contactos comerciais, de grande distância, com as comunidades peninsulares. A decoração granulada dos botões do Outeiro da Cabeça, e as espirais dos colchetes, demonstram marcadas influências mediterrânicas, transmitidas pelo comércio fenício que, por essa época, começa a demandar as costas da Península Ibérica. A comprovar a presença fenícia em Torres Vedras está, ainda, a descoberta, num contexto funerário, de um jarro de bronze e duas asas de um prato para libações, vulgarmente descrito como um braseiro, no Alto de S. João. Estas peças evidenciam, nitidamente, intercâmbios com o horizonte orientalizante, cujo principal foco produtor, a Ocidente, se situa na área de Tartesso.

As peças de ouro do Outeiro da Cabeça são objectos de adorno e ostentação, que identificam as elites. Embora não sendo possível saber quem, há cerca de dois mil e seiscentos anos, utilizou estes botões, colares e brincos, sabemos, no entanto, que seria alguém com uma considerável importância e riqueza, no seio da sua comunidade.

 
Fotografias: Leonel Trindade; Guilherme Cardoso. Desenhos: Silvina Silvério
 

Bibliografia:

A Idade do Bronze em Portugal. Discursos de Poder, Lisboa, Instituto Português de Museus – Museu Nacional de Arqueologia, 1995.

ABREU, Mila Simões de, A Ourivesaria Arcaica Portuguesa, in PEREIRA, Paulo (Dir.), História da Arte Portuguesa, vol. 1, Lisboa, Círculo de Leitores, 1995, pp. 71-75.

ARMBRUSTER, Barbara e PARREIRA, Rui (Coord.), Inventário do Museu Nacional de Arqueologia. Colecção de Ourivesaria, 1º vol. – Do Calcolítico à Idade do Bronze, Lisboa, Instituto Português de Museus – Inventário do Património Cultural, 1993.

BELO, Ricardo, TRINDADE, Leonel e FERREIRA, O. da Veiga, Gruta da Cova da Moura (Torres Vedras), in Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, tomo XLV, Lisboa, Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos, 1961, pp. 391-418.

HELENO, Manuel, Jóias Pré-Romanas, in Ethnos, vol. I, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, 1935, pp. 229-258.

PARREIRA, Rui (Coord.), Tesouros da Arqueologia Portuguesa no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, 1980.

SANTOS, M. Farinha dos, Pré-História de Portugal, 2ª. ed., Lisboa, Editorial Verbo, 1974.

SILVA, Armando Coelho Ferreira da, Ourivesaria Proto-Histórica em Território Português, in ALARCÃO, Jorge de e SANTOS, Ana Isabel Palma (Coord.), De Ulisses a Viriato. O Primeiro Milénio a. C., Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 1996, pp. 139-146.

TRINDADE, Leonel e FERREIRA, O. da Veiga, Tesouro Pré-Histórico de Bonabal (Torres Vedras), separata de Revista de Guimarães, vol. LXXIV, Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, 1964.

© Isabel de Luna / 1999.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «Um tesouro pré-histórico», jornal Badaladas, n.º 2255, suplemento Freguesias, 10. Torres Vedras: Fábrica da Igreja Paroquial de S. Pedro e S. Tiago, 26.03.1999, p. 7.

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