Arqueologia da Arquitectura


Azenha de Santa Cruz, 2005

(Fotografia de Guilherme Cardoso)

AZS 13-09-2005 12

O desenvolvimento das investigações em arqueologia urbana levou a que, na década de 70 do século XX, se tenha constatado a incoerência da repartição do estudo dos centros urbanos entre uma disciplina arqueológica que investigava o património construído oculto no subsolo, e uma disciplina arquitectónica que investigava aquele que se elevava acima do solo. De facto, o património arqueológico, apesar de soterrado, aflora por vezes à superfície, a partir das fundações dos edifícios existentes. A própria genealogia histórica dos imóveis é atestada pela investigação arqueológica, pelo que a acção do arqueólogo se estende ao edificado e a do arquitecto tem de passar, invariavelmente, pela componente arqueológica dos edifícios. Nasceu assim a denominada Arqueologia da Arquitectura, uma especialização metodológica e instrumental, pluridisciplinar, que envolve urbanistas, arquitectos, engenheiros, historiadores de arte, arqueólogos e artífices, que veio renovar e alargar consideravelmente os estudos de arqueologia urbana. Basicamente, consiste na aplicação aos edifícios das metodologias arqueológicas, nomeadamente dos sistemas de análise estratigráfica e de registo. A estratigrafia horizontal, do subsolo urbano, é entendida como formando uma unidade natural com a estratigrafia vertical das paredes dos edifícios, com a qual claramente se interrelaciona.

A Arqueologia da Arquitectura beneficiou de um conjunto de desenvolvimentos teóricos e tecnológicos registados nos últimos anos, como os sistemas de datação absoluta de paramentos (dendrocronologia e termoluminescência), as técnicas de registo e representação (fotogrametria), os sistemas de análise de técnicas e materiais de construção e um novo sistema de representação estratigráfica: a matriz de Harris (1979). Estas técnicas, aplicadas aos edifícios, permitem obter informações não apenas sobre a construção, mas igualmente sobre as alterações, restauros e reconstruções efectuadas ao longo do tempo.

A arqueologia urbana, enquanto arqueologia da “cidade em devir”, procura estudar, entre outros aspectos, a origem e evolução da cidade, o seu enquadramento, planeamento, estrutura morfológica, relações e hierarquias espaciais, infra-estruturas e edificações urbanas, bem como as suas vocações, locais simbólicos, actividades económicas e movimentos populacionais. A nova abordagem dada pela arqueologia da arquitectura veio acrescentar a este volume de informação uma série de conhecimentos específicos sobre as edificações urbanas, nomeadamente o estudo dos espaços e dos usos, bem como dos processos, técnicas e fases de construção.

Não obstante todos os desenvolvimentos da arqueologia urbana, no final do século XX o crescimento demográfico das cidades e a consequente expansão da construção civil, a par dos projectos de renovação urbana, em particular dos centros históricos, acabaram por afastar a disciplina dos seus propósitos iniciais, passando esta a funcionar quase exclusivamente como uma “arqueologia de salvamento”, cuja função consiste em libertar os terrenos urbanos dos empecilhos arqueológicos, de modo a viabilizar novos empreendimentos. Se bem que a maioria dos municípios disponha já de gabinetes de arqueologia, que procedem ao acompanhamento das intervenções levadas a cabo nos centros urbanos, muitos limitam ainda a sua acção aos trabalhos arqueológicos mínimos obrigatórios, nos imóveis classificados e suas respectivas zonas de protecção, remetendo a história das cidades para um plano claramente secundário. Por isso, os centros históricos urbanos continuam a assistir, diariamente, à realização de obras em espaços públicos, edifícios e infra-estruturas, que destroem irremediavelmente volumosas e preciosas parcelas da história das cidades e dos nossos antepassados.

© Isabel de Luna / 2012.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «O lugar da arqueologia no contexto actual da história das cidades (parte III)», in ADDPCTV (coord.) – «Patrimónios», jornal Badaladas, n.º 2975. Torres Vedras: Fábrica da Igreja Paroquial de S. Pedro e S. Tiago, 11.01.2013, p. 24. Disponível em http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.pt/2013_02_01_archive.html.

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