Arqueologia Urbana

Paço do Patim, 1997
(Fotografia de Guilherme Cardoso)

Tvedras Patim 036

Os núcleos urbanos constituem expressões materiais da vida das comunidades que os habitaram ao longo dos tempos e, por esse facto, constituem “um dos mais poderosos arquivos da memória da sociedade contemporânea”: “na cidade, o passado está sempre presente” [1]. Mas o património histórico dos centros urbanos não se confina aos espaços e às construções que se erguem acima do solo. De facto, sob os solos das cidades acumulam-se sucessivas camadas de vestígios arqueológicos, que testemunham a vida de dezenas de gerações de antepassados que habitaram o mesmo local e que o foram transformando ao longo dos séculos.

As cidades, vilas e aldeias são estruturas complexas, pluri-estratigrafadas, que resultam de lentos processos de construção, alteração, reformulação, deterioração e renovação, devidamente sedimentados pela passagem do tempo. Estas acções acabam por ficar registadas no subsolo, numa complexa sobreposição de níveis de ocupação que, apesar de “invisíveis”, constituem verdadeiros “arquivos do solo”[2], de elevado potencial histórico-documental.

A consideração da cidade como sítio histórico-monumental (Carta de Veneza, 1964) pressupõe o seu entendimento como uma realidade única, um todo em si própria. Nesta perspectiva, o estudo da cidade deverá partir de uma abordagem integral e transdisciplinar, que tenha em conta a sua integração tanto no espaço como no tempo. A Arqueologia Urbana, através das suas metodologias específicas, é a disciplina que permite recuperar a informação contida no subsolo das cidades e proceder ao seu estudo sequencial, revelando a origem e evolução da urbe.

A Arqueologia Urbana desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XX, quando o objecto de estudo da arqueologia se alargou para lá dos períodos clássicos da história, estabelecendo a aplicabilidade dos seus métodos a todas as épocas do passado, até à actualidade. Também a destruição urbana provocada pela Segunda Guerra Mundial permitiu uma consciencialização do volume de informação histórica irremediavelmente perdido, num processo conhecido por “erosão da história”.

Todavia, a arqueologia urbana não deve confundir-se com uma mera “arqueologia em meio urbano”, de carácter necessariamente pontual e fragmentário: mais do que uma arqueologia na cidade, ela deve constituir-se como uma arqueologia da cidade. O que, de certa forma, pressupõe que cada cidade seja“objecto de um projecto de investigação consistente, com objectivos concretos” [3]. A arqueologia urbana deve ser entendida, pois, como uma arqueologia “das cidades vivas”, enquanto prática contínua, decorrente de um projecto de investigação coordenado por uma entidade tutelar [4]. A cidade é percebida como uma entidade viva, em permanente evolução, em que a arqueologia procura não apenas o seu conhecimento, mas fazer simultaneamente com que esse conhecimento seja utilizado na gestão quotidiana e sustentável do espaço urbano, tendo em conta que os recursos arqueológicos são limitados e a sua perda irreversível e irreparável.

Em Portugal, destacam-se os casos de Braga e Mértola onde, através de projectos integrados de arqueologia, foi possível obter um conhecimento profundo sobre as cidades e, simultaneamente, fazer reverter esse mesmo conhecimento em prol do desenvolvimento das urbes.


[1] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo – «A arqueologia urbana e a defesa do património das cidades», 2010, 149-177.
[2] GALINIÉ, Henri – «La gestion des archives du sol en ville», 1992, 137-162.
[3] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo, op. cit.
[4] GASPAR, Alexandra, DELGADO, Manuela & LEMOS, Francisco Sande – «O salvamento de Bracara Augusta», 1986, 27-42.

© Isabel de Luna / 2012.  Publicado originalmente como:

LUNA, Isabel de – «A importância da Arqueologia Urbana (parte II)», in ADDPCTV (coord.) – «Patrimónios», jornal Badaladas, n.º 2972. Torres Vedras: Fábrica da Igreja Paroquial de S. Pedro e S. Tiago, 21.12.2012, p. 27. Disponível em http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.pt/2013_02_01_archive.html.

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